Entrevistas
Por: Max Almeida E-mail: maxalbrn@gmail.com

Jota Oliveira

Pedras que rolam não criam limo

Olhar para frente faz parte da vida, é necessidade de sobrevivência. Pensar no mundo como um lugar onde a forma de pensar, agir, se vestir,ouvir música, se relacionar, trabalhar, dançar, amar e viver muda o tempo todo.

Sabe aquela velha história de que pedras que rolam não criam limo? Talvez essa seja uma das mais praticadas filosofias de vida de Jota Oliveira, uma vez que sua atividade profissional é registrar os movimentos da rápida locomotiva social, o seu avançar pela roda do tempo, as novas gerações e por conseqüência as novas mentalidades que vão surgindo e se impondo à medida que o tempo segue em diante. Ver, ouvir e pôr no papel todas essas mudanças é atividade que exige atenção. É tudo aquilo que Oliveira considera o verdadeiro conceito do que é "ser moderno".

Para Oliveira, ser moderno é algo bem mais profundo do que apenas seguir modismos ou ditar modismos. "É estar antenado com o que acontece ao seu redor", afirmou nesta entrevista. Simples assim. Ao longo do bate-papo, o jornalista teceu observações sobre um pouco de tudo que ele viu mudar durante os quase trinta anos em que se dedica ao colunismo social -- e também aquelas coisas que não mudaram tanto assim. Mudanças que ocorreram na província que virou cidade grande, mas em alguns aspectos ainda guarda certo clima de cidadezinha do interior, da aldeia que demorou 400 anos para crescer. Oliveira olha não apenas para a sua cidade, como também para o que está acontecendo no mundo. A aldeia, como se sabe, agora é global, e tudo isso está ligado. E o colunista, como observador da sociedade, tem que estar de prontidão, registrando tudo.

O que é ser moderno hoje?

J. Oliveira - Estar de antenas ligadas com o que acontece no mundo, com o seu tempo, ao seu redor. Quem está atento às mudanças não se acomoda. Principalmente hoje em dia, em que tudo está muito veloz. O pensamento é o mais importante, ele tem que acompanhar a velocidade acelerada do mundo contemporâneo. Há quem ache que ser moderno é só estar na moda ou fazer modismos. Quem pensa assim logo é passado para trás nos dias de hoje, está fadado a sair de moda rapidinho.

O que só sai "a fórceps" em Natal, ou seja, aquelas coisas que são difíceis de acontecer?

J. Oliveira - Ah, tem muita coisa! São muitos fatores que contribuem para isso, barreiras como a localização geográfica, a situação financeira, as desigualdades sociais. Mas isso não chega a ser uma exclusividade de Natal, é comum por todo Brasil, até pelo mundo. Da mesma forma, há também várias coisas nas quais somos privilegiados de ter só por aqui..

Em nome da modernidade estão destruindo a história?

J. Oliveira - É um dos fatores negativos do desenvolvimento, infelizmente. Os casos estão aí para todo mundo ver. O mais gritante é o do aquecimento global, causando todo esse desequilíbrio de clima e temperatura que a gente está vendo. A ambição do homem pelo crescimento gera barbaridades diversas, que vão desde o desmatamento na Amazônia até essa poluição horrível que está acontecendo no rio Potengi. Os homens têm que pôr a mão na consciência.

O que ainda há de mais provinciano na Natal moderna?

J.Oliveira - (Risos) Bastante coisa, pra te falar a verdade! Natal só tem a capa de avançada. Muita gente leva a sério aquela história de que os americanos modernizaram a cidade quando estiveram por aqui durante a Segunda Guerra...Mas não é nada disso. Esse avanço, se houve, deve ter sido num aspecto estrutural, mas não de mentalidade. A nossa educação ainda é muita conservadora. A minha geração ainda é muito provinciana, apesar de ter sido criada nos anos 60 e 70, com a pílula, a minissaia, as drogas, os Rolling Stones e os Beatles. Na verdade, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”, como diz aquela música do Belchior que a Elis cantou. Mas acredito que a mudança verdadeira virá do povo mais jovem, esse que está chegando agora.

Dê exemplos desse provincianismo que ainda vigora por aqui.

J. Oliveira - Prefiro não citar nomes e fatos. As pessoas conservadoras sabem o que são. E as pessoas que não são conservadoras sabem quais são os problemas que acontecem por aqui. Bom, eu mesmo ainda conservo muita coisa de provinciano.

E o que evoluiu em Natal?

J. Oliveira - Muita coisa melhorou. A globalização contribuiu muito para isso.
A internet está ajudando a abrir a mente das pessoas. E a cidade cresceu muito. Hoje temos mais universidades, temos mais gente de outras partes do Brasil e do mundo que estão morando aqui, que acrescentam à cultura da cidade. A gente quase não se dá conta do quanto Natal cresceu. A cidade está muito mais bonita. Credito boa parte dessas boas mudanças à administração atual, que tem se mostrado preocupada com o desenvolvimento da cidade, desde o saneamento à urbanização.

Qual a sua referência de modernidade? Há algo ou alguém que te inspirou a sempre olhar para frente?

J. Oliveira - Não há alguém em especial. Acho que a leitura, a informação, são coisas que te levam a adquirir um conceito maior de mundo. Não tenho um mito, um ícone em particular.

O que deixou saudade, o que sumiu no rastro da modernidade?

J. Oliveira - Ah, as festas de minha juventude, os programas das pessoas da minha geração, os lugares. Acho que, de certo modo, havia um clima maior de segurança e mais entrosamento entre as pessoas. Tudo isso foi bom, mas o passado passou. É bom relembrar, mas o presente é mais importante. É melhor guardar as expectativas para o futuro, olhar em direção ao horizonte.

E em relação ao seu colunismo social, o que você acha que viu à frente do que havia antes?

J. Oliveira - Eu tive Epifânio como o grande mestre antecessor, portanto, procurei fazer algo diferente, mais leve, despretensioso, moderno. Acho que eu trouxe uma dinâmica nova, trouxe novos personagens, criei festas diferentes. Fui o primeiro a fazer festas com camisetas, com champanhe, com ambientação de arquitetos. Antes se falava mais de glamour, de jóias, dos mais elegantes, tudo aquilo herdado do Zózimo Barroso do Amaral. Eu vim com um estilo e uma proposta diferentes. Tive a sorte de começar com uma galera jovem dos anos 80, um pessoal esperto, vencedor, e que está comigo até hoje. Atualmente, os filhos deles estão se tornando meus colunáveis.

FOTOS: ROGÉRIO VITAL

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