Contrapondo censura, artista expõe obra erótica na CasaCor RN

Em meio ao clima de comoção da classe artística pelos recentes episódios de censura, a Galeria Toque de Mídias traz a Natal trabalhos inéditos da artista Anasor ed Searom. Os dois quadros estão expostos no ambiente do arquiteto Renato Teles, na Casa Cor RN, principal mostra de arquitetura, que será aberta ao público nesta sexta-feira, 15. As telas são uma continuação da premiada série “Passa-louca”, exposta em diversos países. As aves já bateram asas, por exemplo, para o Museo Eugenio Granell em Santiago de Compostela (Espanha) e Museo De La Solidariedad Salvador Allende em Santiago (Chile).

O corpo, a nudez e a sexualidade em obras de arte estão no centro de um debate caloroso, após o cancelamento da exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”, em Porto Alegre (RS), por questionamentos morais do seu conteúdo. Artistas falam em censura. Não alheia a esta polêmica e certa de que a arte é um dos raros territórios em que o cidadão pode se manifestar sem medo de opressões, a artista reinterpretou um dos seus clássicos preferidos, inserindo a cabeça de um gavião-de-penacho. “A obra traz uma releitura da Vênus de Botticelli, com uma faixa contornando seu corpo, na qual estão escritos os três preceitos da proporção áurea”, explica Anasor. A tela tem 100 x 50 cm, tamanho superior ao que comumente costuma pintar.

Sobre a sensualidade em seus trabalhos, ela explica que aborda o erotismo dentro de um tema universal que é a figura humana. “É uma pesquisa pessoal e não está pautada em julgamentos morais alheios. Sendo assim, não tenho receio de retaliações”, afirma. “Se eu tivesse parado de produzir ao escutar os primeiros repúdios moralistas à minha estética e temática, não seria artista”.

Na Galeria Toque de Mídias, no Natal Shopping, há outros trabalhos na mesma linha. Para o jornalista Cristiano Félix, que faz a curadoria das exposições, “o nu é uma das formas mais clássicas do belo. Sempre haverá quem atire pedras, levianamente. Mas os grandes e verdadeiros artistas nunca irão se acovardar. Acreditamos nisso e também não temos pudores ou receios de apresentar esse tipo de arte ao público”, afirma.

QUEERMUSEU

Em relação ao episódio do Queermuseu, exposição cancelada depois de uma série de protestos na internet liderados, principalmente, pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Anasor é taxativa: “Considero uma censura, sendo também um atentado ao direito de expressão e à hipotética democracia brasileira”. A mostra estava em cartaz há quase um mês no Santander Cultural, em Porto Alegre.

A artista recorda ainda de outras circunstâncias de censura e exclusão na História da Arte. “Tivemos as reações contra os impressionistas, o conceito nazista de arte degenerada, repúdios no nosso próprio modernismo e, mais recentemente, a destruição de patrimônios históricos da humanidade por extremistas religiosos no Oriente. Dessa forma, podemos refletir que a intolerância não gera conhecimento, e tão somente destrói, deforma e aprisiona as mentalidades”.

A exposição, que passou pela curadoria de Gaudêncio Fidelis — curador-chefe da 10ª Bienal do Mercosul, em 2015 —reunia 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade sexual.

CASACOR

As telas da Anasor foram colocadas no espaço do arquiteto Renato Teles, na área que representa a suíte do casal, de 63m, integrada à área de banho. No local, há várias peças de arte que se juntam como um mapa conduzindo o visitante a novas descobertas.

Esta edição 2017 da CASACOR Rio Grande do Norte está ocorrendo na Avenida Hermes da Fonseca, 1296. Outras 12 obras podem ser vistas na Galeria Toque de Mídias, no Natal Shopping. O espaço funciona de segunda a sábado, das 12h às 21h.