Há 10 anos, o Google decidiu ser um gigante fora da web

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    Nos últimos 10 anos, Chrome e Android deram guinada para Google investir em IA e drones

    Nos últimos 10 anos, Chrome e Android deram guinada para Google investir em IA e drones

UOL Tecnologia

O Google completou na semana passada 20 anos de vida. Mas foi apenas na segunda década de vida que a companhia decidiu que não seria apenas uma potência dos serviços na web. Ela queria muito mais.

O ano de 2008 marcou a guinada. Foi quando a empresa fez dois lançamentos de produtos-chave: o navegador de internet Chrome e o sistema operacional para celulares Android. Com eles, o Google deixava de pensar apenas em serviços dentro de internet, e passaria a mirar nos seus próprios programas e sistemas.

Na sua primeira década, o Google se firmou como uma potência na web. Além do buscador, a empresa mantinha serviços de publicidade (o Adwords), de webmail (Gmail), de mapas, de mensagens (Google Talk) e de vídeos. Consolidada essa posição era hora de crescer de outras maneiras.

Nova versão do Chrome, mais rápida e com interface mais limpa

Da web para os próprios programas

Tanto o Chrome como o Android foram apostas que deram muito certo: o navegador superou o líder do segmento, o Internet Explorer da Microsoft, e abocanhou 60% desse mercado. Em homenagem aos seus 10 anos, o Chrome ficou mais rápido e com interface mais limpa.

Em entrevista ao UOL Tecnologia, Darin Fisher e Rahul  Roy-Chowdhury, respectivamente vice-presidente de engenharia do Chrome e vice-presidente de produto do Chrome, se mostraram modestos quanto a essa liderança e disseram colaborar de perto com os navegadores “rivais”.

“Nosso alvo é fazer a web melhor para os usuários. O código do Chrome é aberto, porque sentimos que compartilhar para outros navegadores usuários significa que queremos a web melhor para todos. A competição nos leva a criar melhorias com os usuários. Colaboramos de perto com Microsoft, Mozilla e Opera sobre isso”, disseram.

Já o Android é o sistema mais usado em celulares do mundo, com 88% do mercado hoje. É adotado por várias fabricantes e firmou-se como rival poderoso ao iOS da Apple. Isso não foi pouca coisa, já que após o iPhone, a experiência de uso migrou potencialmente dos computadores para os celulares.

Nos dez anos do Google, em 2008, um artigo de Charles Arthur, do jornal britânico “The Guardian”, previa que nos dez anos seguintes a empresa iria destinar esforços à ascensão dos computadores ultraportáteis e a novas fontes de energia, além de bastante atenção ao seu então novato sistema Android.

Em dez anos, os telefones Android estarão vendendo mais que os telefones usando o Microsoft Windows Mobile ou o Apple iPhones. Sim, eu acho isso

Charles Arthur, editor de tecnologia do The Guardian” de 2009 a 2014

A previsão dele foi certeira em outros pontos também: o leve sistema Chrome OS, focado em notebooks simples e baratos, é uma vertente da empresa, além de seu projeto ambiental que investiu US$ 2,5 bilhões em projetos de energia renovável.

Divulgação/ Twitter @googledevs

Android deu empurrão para Google estar em quase todos os celulares do mundo

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“Jetsons” é aqui

Se você prestar atenção nos recentes passos dos fundadores do Google, verá que a dupla está sonhando com um futuro à la “Jetsons”, com inteligência artificial, carros autônomos nos transportando, saúde elevando a longevidade e a computação em nuvem dando suporte a tudo isso.

Em 2015 eles fundaram a Alphabet, um guarda-chuvas gigante para abrigar todas as aquisições e pesquisas de Brin e Page. A ideia é que a empresa-mãe viabilize, tanto em termos práticos quanto econômicos, esse futuro perfeito. O Google como conhecíamos antigamente virou só uma divisão dentro da Alphabet.

Há anos, o Google vem adquirindo várias empresas pequenas e agregando-os aos seus serviços. Poucos lembram, mas o YouTube, o Waze e o Android não foram criados pelo Google, mas comprados. Só que os fundadores viram que o Google estava ficando tão inchado quanto suas ambições em áreas como saúde, ambiente e incubação de startups. Criar a Alphabet foi a forma de resolver isso, mantendo o foco do Google na internet.

Este novo Google é um pouco mais enxuto, com as empresas que estão bem longe dos nossos principais produtos da internet contidos no Alphabet. O que queremos dizer com muito longe? Bons exemplos são os nossos esforços de saúde: Life Sciences (que trabalha na lente de contato sensível à glicose) e Calico (focado na longevidade)

Larry Page, cofundador do Google, em sua carta de intenções sobre a Alphabet

Na mesma carta, Page reforçou que “o Google não é uma empresa convencional. Não pretendemos nos tornar uma”. E de fato, a Alphabet/Google já vem investindo aos poucos em coisas bem malucas, como:

  • Carros autônomos, já sendo testados nos EUA por sua subsidiária Waymo
  • Inteligência artificial, que já servem ou ainda vão servir todos os produtos e áreas da empresa, desde serviços web como tradução de textos e Google Assistente até os os descritos nesta lista
  • Saúde, que busca a longevidade e melhoria do atendimento nos hospitais, no tratamento de doenças e procedimentos, ou na qualidade de vida das pessoas –ou pelo menos daquelas que puderem pagar por isso. Suas empresas Verily, Deepmind e Calico cuidam disso
  • Nuvem, um negócio que a Microsoft e a Amazon já vem mostrando ser lucrativo, alugando armazenamento, plataformas e processamento pesado para empresas do mundo todo
  • Drones, com uma unidade de testes de entregas por drones chamada Project Wing
  • Realidade virtual, como o projeto Daydream, com plataforma para games e ambientes imersivos

Pedras no sapato

Para manter esse sonho de futuro de pé, porém a empresa terá seus desafios, como superar a concorrência já existente –Microsoft, Amazon, Facebook e outras já pesquisam ou atuam a fundo em IA, drones e nuvem.

Nem todas as recentes iniciativas inovadoras do Google deslancharam. O Projeto Ara (celulares modulares), Google Glass (óculos inteligentes), Projeto Tango (celulares pensados para realidade aumentada) e um headset para a plataforma de realidade virtual Daydream ficaram pelo caminho.

Outro desafio é a regulação dos governos. Neste ano, o Google foi multado pela União Europeia em  4,3 bilhões por monopólio e concorrência desleal. A empresa foi considerada culpada por ter exigido que os fabricantes pré-instalassem o app do Google e o navegador Chrome como condição para conceder a licença de uso da loja de apps Play Store.

Mas é muito possível que a liderança da empresa na Europa –assim como no mundo– não seja abalada por isso, já que oferece serviços populares e gratuitos.

Não é à toa que paira o medo da Alphabet ser uma empresa tão grande que se torne não apenas impossível de ser detida dentro do mundo dos negócios, mas que tratem com relativo descaso a soberania dos países, mesmo em tempos de leis de dados pessoais na Europa e no Brasil. O presidente da França, Emmanuel  Macron, levantou esse temor em uma entrevista à “Wired” em março deste ano.

Para aqueles que concordam com o presidente francês, forçar uma divisão da Alphabet em várias empresas menores seria uma solução.

E depois?

Mesmo com esses obstáculos, o futuro do Google e das empresas “irmãs” no Alphabet parece brilhante. Com ou sem futuro dos “Jetsons”, a empresa deve permanecer onde sempre esteve: na internet, mesmo que a internet esteja em cada vez mais coisas além dos computadores e celulares.

“As pessoas estão usando computação em muitos aparelhos diferentes e de diferentes formatos. Costumava ser só o desktop e laptop, depois veio o celular, agora o fazem em alto falantes como o Google Home. Em paralelo, temos coisas como realidade aumentada e virtual. Queremos ter certeza de que todo o conteúdo web possa levar a novos tipos de experiências”, diz Rahul Roy-Chowdhury, vice-presidente de produto do Chrome.

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Logo do Android 4.0 ao 4.0.4 (Ice Cream Sandwich), lançado em 18 de outubro de 2011 Imagem: Divulgação