Psicóloga especialista chama atenção para o luto prolongado, silencioso e social como desafios para a atualidade.
Mesmo sendo uma experiência comum, o processo de luto nem sempre é visível. Embora a morte seja culturalmente associada ao luto, muitas perdas atravessam a vida sem receber nome, reconhecimento ou acolhimento. Em um momento em que a saúde mental ganha mais espaço no debate público, torna-se fundamental ampliar o olhar para um recorte ainda pouco discutido: o cuidado emocional com pessoas que vivem o chamado luto invisibilizado.
Ao contrário do que muitos acreditam, o luto não é restrito à perda por morte. Ele também pode estar presente em rupturas afetivas, afastamentos familiares, perdas simbólicas, mudanças bruscas de vida e experiências coletivas de sofrimento social. Ainda assim, grande parte dessas dores segue sendo vivida em silêncio, sem espaço legítimo para expressão, escuta ou elaboração emocional.
Segundo a psicóloga especialista em luto do Morada da Paz, Alexsandra Sousa, o luto invisível pode assumir diferentes formas, sendo frequentemente prolongado, silencioso e socialmente não reconhecido. Esse tipo de luto ocorre quando a perda não é validada pelo entorno ou quando existe uma expectativa social de que a dor já deveria ter sido superada. “Por não ser evidente, quem vive esse luto muitas vezes escuta frases como ‘você precisa seguir em frente’ ou ‘isso já passou’. Com o tempo, a pessoa se sente constrangida a silenciar a própria dor, que deixa de ser compartilhada e passa a ser carregada sozinha”, aponta a especialista.
O luto prolongado ocorre quando a pessoa permanece por meses ou anos em sofrimento intenso, com dificuldade de retomar atividades cotidianas, estabelecer vínculos e projetar o futuro. Nesse cenário, o sofrimento deixa de ser apenas uma resposta natural à perda e passa a comprometer o funcionamento emocional e social. Estudos da psicologia e da psiquiatria indicam que esse tipo de luto pode evoluir para quadros de ansiedade, depressão, isolamento social e adoecimento físico, caso não haja suporte emocional adequado.
Outro processo recorrente é o luto silencioso, vivenciado quando a perda não é socialmente reconhecida como legítima. Abortos espontâneos, separações, mortes de ex-companheiros, perdas de vínculos afetivos importantes ou até de animais de estimação são exemplos frequentes. Nessas situações, a dor existe, mas não encontra autorização social para ser expressa, o que aprofunda o sentimento de solidão.
Além das perdas individuais, cresce também o reconhecimento do luto social, vivenciado em contextos de crises sanitárias, desastres ambientais, violência, instabilidade social e mudanças abruptas que afetam comunidades inteiras. Mesmo sem uma perda pessoal direta, esses eventos podem gerar sensação de insegurança, ruptura de expectativas e sofrimento emocional coletivo.
Acolhimento e cuidado
Para a psicóloga, o que mais falta às pessoas que vivenciam o luto invisível é um espaço seguro para que o processo possa ser vivido sem julgamento. “Quando a dor não é reconhecida, ela se intensifica”, afirma. Alexsandra conduz o Chá da Saudade, grupo de escuta para pessoas enlutadas, com encontros mensais presenciais. A iniciativa é aberta a clientes e familiares atendidos pelas marcas do Grupo Morada e oferece escuta mediada por psicólogos especializados em luto. “É um espaço onde a dor e a saudade são validadas, permitindo que cada pessoa viva o luto no seu tempo”, explica.
Verônica Melo é a frequentadora mais antiga do grupo. Viúva há sete anos, ela relata que sua dor nem sempre encontra escuta na família e entre alguns amigos.“A ausência do meu marido é minha maior tristeza, procuro apoio no Chá da Saudade, onde entendi que não existe tempo limite para terminar um luto. Não sou ignorada nem julgada por isso”, conta.
Pessoas como Verônica buscam apoio no grupo todos os meses. Alexsandra ressalta que o propósito do Chá da Saudade não é acelerar processos, mas acolher sem minimizar. “Eles estão aqui para entender que seguir em frente não é esquecer, é encontrar formas possíveis de continuar”.
Saúde mental e luto
Para o Grupo Morada, holding responsável pelas marcas Morada da Paz, Morada da Paz Essencial e Morada da Paz Pet, falar sobre saúde mental no contexto do luto é uma extensão direta do seu propósito institucional de cuidado integral. Reconhecer as diferentes formas de perda é também reconhecer diferentes formas de sofrimento, que nem sempre estão associadas apenas à morte.
Esse olhar se materializa no Morada do Cuidado, espaço terapêutico do grupo que oferece acompanhamento psicológico individual, além de sediar iniciativas coletivas como o Chá da Saudade. O local foi criado para acolher pessoas em diferentes momentos de fragilidade emocional, ampliando o cuidado para além do luto e alcançando questões relacionadas à saúde mental de forma contínua e humanizada.
Alexsandra destaca que o processo de luto não é igual para todos. “Algumas pessoas ainda estão aprendendo a conviver com o que foi perdido: um amor, uma versão de si, um sonho, uma saúde ou uma presença. Cuidar da saúde mental também é reconhecer esses lutos, mesmo quando eles não são visíveis”, conclui.


