Covid-19: entenda a diferença entre o teste rápido e o ‘padrão ouro’

R7

Amostras de sangue colhidas de trabalhadores para testes sorológicos na empresa Liebherr, na Itália
Massimo Pinca/ Reuters – 05.05.2020

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) permite, desde a semana passada, que farmácias apliquem testes rápidos de covid-19. O órgão afirma que esse tipo de teste não tem o objetivo de diagnosticar a doença e que a medida é temporária e excepcional.

Além disso, destaca que apesar de não haver necessidade de pedido médico, o exame não deve ser feito indiscriminadamente. Quem procurar a farmácia com esse objetivo deve ser orientado pelo farmacêutico sobre o momento certo para a realização.

O teste rápido sorológico detecta a presença de anticorpos que foram gerados em resposta à infecção pelo novo coronavírus e seu resultado sai em dez minutos, de acordo com o virologista e biólogo Flávio Guimarães da Fonseca, do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

“É feita uma pequena coleta de sangue. Ele é colocado em uma plataforma de plástico que ajuda esse fluxo da amostra [de sangue] a escorrer”, explica. “Depois, é aplicado um reagente que dá cor a esses anticorpos”, descreve, referindo-se a um teste rápido que teria resultado positivo.

Os testes rápidos podem detectar dois tipos de anticorpos chamados IgM – primeiro a ser produzido, indica que a pessoa está infectada ou teve infecção recente – e IgG – é o mais ambundante e demora  para ser produzido, indica que a pessoa está recuperada, mas não necessariamente imune.

“Existem diferentes testes rápidos. Alguns detectam os dois [tipos de anticorpos ao mesmo tempo] e alguns fazem a detecção separada”, esclarece o especialista.

Resultados ‘falsos negativos’

O ideal é que esse tipo de teste seja feito a partir do sétimo dia de manifestação dos sintomas. “Antes disso, pode dar ‘falso negativo’ porque os anticorpos ainda não apareceram”, pondera.

Entretanto, a Anvisa informa que os “resultados mais robustos foram obtidos a partir do décimo dia”, de demosntrações de sintomas.

“Além disso, para detectar IgM existe um prazo, porque ele vai sumindo e tende a desaparecer cerca de um mês após a infecção”, acrescenta Guimarães.

Segundo o virologista, os resultados falsos negativos acontecem com frequência por duas razões: a quantidade de anticorpos está baixa ou o teste foi coletado no tempo errado. Por isso, o teste rápido não pode ser usado como um diagnóstico definitivo e precisa ser acompanhado de considerações técnicas.

Uma análise encomendada pelo Ministério da Saúde aponta que o exame doado pela mineradora Vale ao governo federal erra 75% dos resultados negativos, se aplicado no tempo errado.

Guimarães explica que a utilidade do teste disponibilizado nas farmácias é epidemiológica e prática, pois serve para estimar o tamanho da população que já foi infectada pelo novo coronavírus e para liberar, por exemplo, profissionais de saúde para o trabalho, pois permite saber quem já está imune.

“Uma pessoa que não está com sintomas dificilmente vai ter a oportunidade de fazer o teste molecular. Então, seve para saber se pessoas não internadas já foram infectadas e também para ajudar na recomposição da força de trabalho médica”, afirma.

“Um plantonista que fica dentro da UTI e é IgG positivo pode trabalhar porque já está imune”, exemplifica. “A gente tem um grau elevado de certeza de que quem já contraiu [o vírus] está imune, mas não sabemos por quanto tempo”, completa.

Teste de biologia molecular é ideal, mas custa caro

Já o RT-PCR é conhecido como teste ‘padrão ouro’  porque detecta a presença do genoma do novo coronavírus.

“Ele identifica uma sequência do material genético do vírus. Então, consegue pegar a doença bem no início, antes do aparecimento de sintomas”, explica Alessandro dos Santos Farias, professor do Instituto de Biologia e Coordenador da Frente de Diagnóstico da Força-Tarefa de enfrentamento ao novo coronavírus da Unicamp.

Guimarães acrescenta que esse tipo de teste, feito com base na biologia molecular, serve para informar se a pessoa tem uma infecção ativa pelo vírus. O problema é que ele exige pessoas treinadas para ser aplicado, depende de insumos importados para ser produzido e é caro.

“Há uma fila de espera de cerca de 45 dias para receber um insumo, por isso eu defendo outras alternativas. Não existe possibilidade estrutural e financeira para fazer aplicação em massa”, avalia.

De acordo com ele. só o equipamento usado para ler o resultado desse exame custa aproximadamente R$ 150 mil.

A sigla RT-PCR significa “reação em cadeia da polimerase acoplada a transcriptase reversa”.

Na prática, isso significa que o RNA – material genético do vírus – é transformado em DNA para depois ser detectado. “O PCR é uma técnica que permite detectar poucas moléculas de DNA, ele identifica e aumenta essa quantidade”, explica o virologista.

As amostras para o exame são retiradas do nariz ou da boca com um instrumento chamado swab, que se parece com um cotonete gigante. A análise é feita em laboratório, de acordo com a Anvisa.

“O resultado leva algumas horas para ficar pronto, mas pode chegar a dias por conta da grande procura pelo exame”, informa a agência em nota divulgada em seu site.